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A voz de Deus, voz da covardia? Categorias:
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Do meu lado um jovem líder que trabalhou alguns anos comigo discutia com outro: – O palestrante quer ir comigo jantar fora, por que eu não posso levá-lo? – Porquê, ué, porquê eu não quero e pronto. Não preciso te dar nenhuma razão, sou o líder desta conferência. Eu era apenas uma expectadora fortuita da discussão, mas na hora em que ouvi – não quero e pronto, sou o líder… – na boca daquele jovem, senti um vento frio soprar no mundo como daqueles que sopram quando alguém comete um pecado capital contra o universo.

Conversei depois com o rapaz, me desculpando, certamente eu devo ter falado assim com ele muitas vezes no passado. Foi como assistir a um filme de terror onde eu mesma era a protagonista. Igreja lotada, domingo à noite, o louvor flui suave. O pregador no microfone diz: – Vamos ouvir agora uma mensagem vinda de Deus. – Ouvimos, se foi Deus não sei, mas não me diz muita coisa. O louvor continua a nos embalar. O encarregado da oferta aproveita e convence: Você não está dando para nós está dando para Deus, e Deus também vai retribuir sua generosidade, mas vai também saber punir se você pode dar e não quer. Assim que ouço a frase categórica sou transportada para uma masmorra da idade média, a esperar a sentença do inquisidor. Tudo é escuro, úmido e frio, minhas mãos e rosto se apertam na grade de ferro, o coração bate forte de medo e dor sabendo que meu destino está nas mãos de pessoas que se sentem capazes de serem a própria voz de Deus na terra.

Ajudei na revisão de um livro e enquanto lia o texto em voz alta repetidas vezes, não pude deixar de notar o tom extremamente apologético da autora. Como a conheço pessoalmente, chamei-a para uma conversa internética. – Landa, suas declarações são muito tímidas, você se defende muito, acho que talvez em inglês isto seja necessário, mas em português fica meio estranho, parece que você duvida do que diz, se desculpa demais ao afirmar certas coisas… Bráulia, tem que ser assim, não se preocupe se parecer demais, meu tom humilde foi intencional.
Tratutore traittore
, claro continuei arrancando umas trezentas frases desculpadoras e permitindo por causa da vontade da autora, umas tantas outras que gostaria de ter tirado. Tem uma coisa que se chama espírito da época. Por espírito não quero dizer uma entidade mística sobrenatural, mas uma atmosfera cognitiva, uma nuvem de conhecimento que envolve toda a humanidade nos tornando sensíveis para algumas coisas, conscientes de algumas idéias, e alheios a outras.
Os seres humanos hoje são profundamente conscientes de sua individualidade. São conscientes de sua habilidade de tomar decisões, de seu poder de fogo. O jovem se sente dono de seu destino, e é. É parte do espírito da época a auto-ajuda, auto-conquista, a independência, o se re-inventar, o recomeço. (Deveria agora acrescentar uma série de acadêmicos famosos que concordam comigo mas me desculpem, não faço por absoluta falta de espaço. Melhor ainda seria te dar exemplos musicais e de filmes porque na arte vemos este espírito bem claramente. Tenho certeza de que se você pesquisar vai encontrá-los em profusão. )

A igreja evangélica brasileira no entanto, na contramão da história continua usando uma retórica medieval. Não somos capazes de propor idéias com coerência e argumentação inteligente, por isto na maioria das vezes optamos por impor idéias através de manipulação mística. As expressões: foi Deus, é de Deus, em nome de Deus, corroboram afirmações desconexas, interesseiras, cruéis, ou simplesmente inúteis. Usamos clichês religiosos por falta de raciocínios pautados pela lógica, nos ocultamos atrás da suposta vontade de Deus para não nos expor ao escrutínio de nossos liderados. Tratamos as pessoas como um rebanho de ovelhas burras e a nós mesmos como seres semi-divinos, infalíveis, um verdadeiro ato de esquizofrenia religiosa. Esquecemos que as metáforas que Cristo usava para si hoje se aplicam a nós, seu corpo. Não somos simplesmente ovelhas. Somos pastores, somos o pão, a porta, o caminho, a verdade e a vida.

Esta Verdade devidamente traduzida para o espírito da época não deve se impor. Ela chega como uma proposta lógica, coerente respaldada pela própria realidade humana que nos cerca. Ela não chega como a única opção de maneira alguma. No mundo de fast-everything, multi-uso, multi-facetas, tudo é possível. As propostas são inúmeras, as opções religiosas costumizadas, a verdade qualquer que seja ela está ao alcance de todos. Deu-se a largada. Todos correm em busca de fregueses. Os prepotentes encontrarão súditos. Os mais humildes encontrarão os verdadeiros servos. (Filipenses 2: 5-8)

Uma teologia coerente com o século XXI admite seus erros, revisa sua história, reconhece seus dogmas, tem medo de si ensimesmar, medo de se afogar em seu próprio vômito. É uma teologia dialógica. Ela necessita do diálogo com o outro como ar para respirar, ela checa sua autenticidade nas ruas e não nas catedrais. Hoje se pudesse, revisaria de novo o livro da Landa e lhe devolveria as frases que cortei.

Hoje se eu pudesse não seria a líder, seria a serva. Hoje se eu pudesse não seria Deus, seria o outro. Assim penso que cumpriria a lei de Cristo. Só hoje.



  • Junior

    Bom ter você como lider que revela coerência com quem lidera. Nos dá um fio de esperança! Pois esta vive sob a ensolação de lideres prepotentes e impotentes, geradores de uma mentalidade doentia e suja. Não é a toa a revolta existente em muitos corações…por toda parte, Brasil ou fora dele, vemos pessoas vítimas desse genocídio mental.

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  • Oi Braulia,
    excelente texto.
    Infelizmente tem sido assim. A maioria das igrejas e seus líderes agem desta forma, tentando inibir o pensamento livre e a liberdade para qual Jesus nos chamou. E o pior é que fazem isso utilizando o nome de Deus, amedrontando seus fiéis a fim de manipulá-los da forma que querem.
    É triste mas é verdade. A igreja tem se perdido em seu objetivo principal. Os líderes tem abusado de seus liderados em nome de Deus. Até quando…????
    Se não se importa, vou postar seu texto em nosso blog. Achei muito legal.
    Théo Pimenta

  • Larissa Gama

    Concordo com a autora do artigo no ponto principal de sua mensagem: Devemos ser servos. O próprio Cristo disse: “Maior é o que serve do que o que é servido”. O maior Líder não é aquele que impõe, mas aquele que expõe suas idéias e conscientiza outros a seguí-la. O Mestre nunca obrigou ninguém a servi-lo, ele convidava, chamava, conscientizava sobre o que era participar do Reino do Céu, tanto sobre “a beleza da rosa” como a “dor de seus espinhos”. Devemos ser seus imitadores, para sermos líderes melhores, servos melhores e termos um mundo melhor.

    A paz esteja com todos, amém!

  • Fabiana

    É realmente lamentável ver o “corpo de Cristo” sendo vituperado mais uma vez,cotidianamente…pior que isso!por alguns que conhecendo o evangelho deturpam ou até mesmo interpretam na esfera do seu universo micro…oro a Deus que abra os olhos e coração,como também o intelecto de seus filhos amados,para então não termos mais enfermos “dentro do seu rebanho”…
    PAZ E GRAÇA A TODOS…

  • aislan

    Muito Profundo e sério, tanto quanto. Mas precisamos perceber que o caminho pelo qual estamos andando é um caminho contrario ao que fomos chamados a seguir.
    o caminho de Cristo leva ao reino dos céus e o caminho que tem sido pregado é um caminho centrado no bem estar do ser humano, pessoas deixam de ir a igreja quando elas não as agrada. devemos agradara Deus ou a nós mesmos?
    precisamos voltar ao original, ao ser Imagem e Semelhança do Criador.
    e para isso somos totalmente dependente da graça de Deus.