Amor ou farisaísmo?

Amor ou farisaísmo?
20 de novembro de 2009 Braulia Ribeiro

Tenho fé, aquela certeza interior da limitação da minha humanidade, e da grandeza de Deus. Sei que apesar de sua sublimidade  posso me relacionar com Ele de uma maneira pessoal.  A fé bíblica não é apenas um consentimento intelectual com as verdades do evangelho mas  relacionamento com o alvo de minha fé é essencial.   A fé verdadeira também demanda um compromisso da vontade com as conclusões a que chega minha mente. Me torno uma realização viva das verdades que creio.

No mundo de hoje no entanto os pressupostos da crença em Deus valem menos do que as emoções que  a crença me traz. E estas emoções contraditoriamente são geradas por coisas que não tem nada a ver com Ele. A rigidez cultural da religião me traz muito mais conforto emocional do que seguir o Espírito.  Fica complicado exercer uma fé simples porque as emoções humanas são sempre complexas.  Jesus me faz tão bem… Como a chocolate, pimenta ou sexo,  Jesus se tornou um estimulador da produção de endorfinas.  Com esta lógica deixo de ter parâmetros para julgar minha fé. Tudo o que me faz bem deve ser produto de fé.  As músicas cantadas hoje na maioria das igrejas só se referem a Deus em relação a mim e minhas emoções, portanto meu subconsciente conclui que tudo no universo gira em torno de mim.

O Espírito Santo paciente,  no seu papel de me alertar, me diz que não é assim, e que não preciso me sentir bem, com qualquer coisa o tempo todo.  Me mostra que a fé não necessariamente deve me fazer feliz mas sim me gera uma paz não compreendida pela razão.  Me questiono ao julgar decisões ou adotar posturas se o  faço por dogmatismo cômodo, por mero conforto emocional, medo ou por convicção real.  Não é fácil separar farisaísmo de amor verdadeiro, mera religião de fé, medo de coragem profética.

Um jeito de se descobrir  a qualidade de fé que se tem é  no ambiente de ausência dela. Se circulamos apenas entre cristãos que rezam pela mesma cartilha doutrinária,  dificilmente teremos nossa fé/emoção religiosa colocada à prova. É num ambiente de questionamentos, deboches, críticas é que podemos testar a força e de nossas convicções.

A questão do infanticídio, este ano atraiu a máfia ideológica pró-índio que odeia as missões cristãs.  Fui submetida durante o ano à diversas sabatinas. Algumas feitas  por entrevistadores apenas curiosos, outras por repórteres especialistas em enganar o entrevistado. Em muitos momentos tivemos que nos questionar para saber o que realmente cremos e como podemos apresentar o que cremos ao público.

Por mais confortável que me faça sentir o atribuir ao diabo as perseguições, pensar que estamos sofrendo por amor à Cristo, um subproduto da fé, o Espírito Santo novamente me leva para um caminho diferente e me diz que estou sofrendo devido à minha própria burrice.

Durante muitos anos como missão só nos comunicamos para a audiência evangélica. Não havia nem interesse de nossa parte de falar com o mundo de fora. Vivíamos como a maioria dos crentes no mundo hermeticamente fechado da religião, e nossa única obrigação com o “mundo” era a  kerigma, ou proclamação da fé. Hoje graças ao desconforto do Espírito considero este isolamento indesculpável, e vejo que sofremos perseguição não por causa do evangelho, mas por causa de nosso pecado de negligência com a missão mais ampla da igreja.  Não amei a sociedade ao meu redor o suficiente para considerá-los dignos de receber minha prestação de contas em sua própria linguagem. Aliás tenho muita dificuldade em falar o socialês, crentês no entanto sai com facilidade.  Não amei os movimentos indigenistas para ser transparente e compreensível, para educá-los numa abordagem mais humana.  Nos tornamos, por orgulho religioso, uma utilidade pública, com utilidade privada, e isto hoje para nós é a desconfortável marca do pecado que vamos carregar por algum tempo.

Ser sal da terra e luz do mundo,  sol e sal, dois elementos conhecidos anti-putrefação,  não é coisa simples.  Ser fariseu é fácil, viver  fé é difícil.  Percebo,  espero que não tarde demais, que o verdadeiro amor me obriga à transparência e discipulado da sociedade como um todo.
Discipulado e verdade não podem ser trocados por conversão religiosa, e minha maior vitória será amar até o fim aqueles que me odeiam e ao evangelho que prego. Serei discípula  d’ Ele quando ainda for capaz de responder em amor aqueles que nunca se convertem, que permanecem no pecado e debocham da minha fé, apesar de todos meus esforços. Não é fácil. Exige cruz, a d’ Ele que me cobre de graça e a minha que mata meu egoísmo, minha obsessão comigo e com minha própria gente.

Pioneira no Norte do Brasil trabalhando entres tribos indígenas, é Mestre em Etno-linguística em Linguística Antropológica pela Universidade Federal de Rondônia. Missionária de Jovens Com Uma Missão desde 1980.

1 Comentário

  1. gabriel cardoso da silva 7 anos atrás

    mis braulia, muito bom poder compartilhar mais uma vez com vc. digo isso pq o seu livro “o chamado radical” mudou minha percepçao do evangelho e de evangelizar. foi libertador ler suas experiencias no norte do pais. muito obrigado!

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