Campo de refugiados sofre incêndio e voluntária relata o que viveu

Campo de refugiados sofre incêndio e voluntária relata o que viveu
25 de novembro de 2016 Ananda Ribeiro

“Mais do que “refugiados”, essas pessoas têm nomes, rostos, histórias […] Manter essas pessoas vivas não é o suficiente, não é o melhor que se pode fazer por elas. Tem muito mais que pode ser feito!”

Ananda Ribeiro/GNI – com relato de Eliceli Katia Bonan
Imagens: Eliceli Katia Bonan

Créditos: Eliceli Katia Bonan

Créditos: Eliceli Katia Bonan

Voluntários de uma organização no maior campo de refugiados da ilha de Lesvos passaram por momentos muito difíceis. Uma das voluntárias nos contou detalhes do que aconteceu. Tudo começou quando uma mulher foi cozinhar em sua tenda e o botijão de gás explodiu. Não se sabe se o ocorrido foi provocado ou se foi um acidente. Ela e duas crianças, que podem ser seus netos, morreram na hora. A confusão aumentou quando grupos de migrantes começaram a atear fogo em outros locais dentro do campo de refugiados. Abaixo, você poderá ler sobre o drama vivido por essas pessoas que, apesar de tudo, estão se importando com o próximo sem medir forças para serem suporte em suas aflições.

Relato de uma voluntária no campo de refugiados

  “Estou em Lesvos, na Grécia, região costeira. O incêndio foi no turno da noite. Trabalho neste turno junto com uma equipe da organização Jovens Com Uma Missão (JOCUM) e estávamos todos no container de uma ONG internacional quando o fogo começou. Dois voluntários correram para a barraca onde, aparentemente, o botijão de gás explodiu. Tentaram salvar uma mulher e uma criança lá dentro, mas já era tarde. Eles voltaram correndo ao nosso container em busca de extintores, mas não havia nenhum. Todos os voluntários da ONG foram aos containers, fechamos os portões por dentro e chamou-se o código de evacuação. Aqueles dois homens queriam voltar e salvar as pessoas, mas não era possível, porque nesses casos de descontrole alguns grupos mais violentos podem se voltar contra os voluntários.

Descemos todos juntos até o portão principal e permanecemos um tempo do lado de fora. A polícia invadiu, houve confronto, os refugiados começaram a sair e nós entramos nos carros e corremos para a vila mais próxima, aguardando orientações.

Hospital

Os dois voluntários foram ao hospital receber atendimento, porque um deles estava com bastante tosse, dificuldade para respirar e uma pequena queimadura no rosto. O outro tinha machucado a mão.

Os refugiados começaram a descer para as vilas também. Uma menina grávida sentou em minha frente, onde estávamos aguardando. Ela não parecia bem, só falava árabe. Tentei falar com ela, saber se precisava de ajuda, mas ela disse que estava tudo bem. Depois, levantou-se e desmaiou. Foi reanimada pelas enfermeiras do nosso grupo e acordou dando gritos desesperados!

Ela estava na barraca ao lado daquela onde a mulher morreu, e estava em choque. Ainda não sabemos ao certo como tudo ficou depois. Parece que mais barracas foram queimadas. Mas as coisas estão calmas agora, porque voltamos a trabalhar normalmente nos turnos hoje.

Nesta manhã, a equipe teve um encontro com o grupo de aconselhamento da ONG. Não sei como foi. Eles moram em outra vila e ainda não retornaram nossas mensagens. Mas foi um momento para que eles pudessem processar juntos tudo o que aconteceu.

Caos e recomeço

O fogo é a forma que os refugiados têm de protestar contra a situação terrível que vivem. O lado ruim disso é que acaba sendo um tiro no pé, pois depois precisam dormir no frio. Quando isso acontece, os voluntários é que reconstroem tudo. Hoje vai começar a reconstrução. Precisamos de paciência. Os que causaram o tumulto são presos e retirados dali e as famílias começam a voltar.

Mais do que “refugiados”, essas pessoas têm nomes, rostos, histórias. E que estão fugindo de morrer na guerra para “morrer na praia”, ou seja, estão tentando sobreviver. O pessoal da JOCUM e os voluntários que estão aqui, sem equipe, precisam de apoio e força.

A única coisa que pode nos trazer algum tipo de esperança  agora é crer que essas mortes não foram em vão. Que sirva para que o mundo olhe para a situação desses refugiados, que paremos de ser indiferentes a isso e que façamos alguma coisa para melhorar a situação deles ou para tirá-los daqui. Porque é possível, sim, fazer muita coisa e se tem feito muito pouco. Manter essas pessoas vivas não é o suficiente, não é o melhor que se pode fazer por elas. Tem muito mais que pode ser feito!”.

Paulista, jornalista e atriz, Ananda faz parte do Movimento de Comunicadores de Jovens Com Uma Missão.

1 Comentário

  1. Carlos Lemos Silva 5 meses atrás

    Existem diversas organizacoes atuando em campos de refugiados, como nesse campo de Moriah, na Ilha de Lesvos. Esse nao foi o primeiro incidente ali. Temos atuado ali com dezenas de pessoas, desde o ano passado e Deus tem usado a equipe para abencoar muitos, nao somente com a ajuda humanitaria, mas pessoal e espiritual.

    O trabalho de apoio e feito por essas organizacoes de profissionais que atuam com recursos que vem da ONU e Uniao Europeia. Eles fazem praticamente todo o trabalho que e possivel no campo, como cosnstrucao de casas, instalacao de tendas, fornecimento de comida, provisao de agua, construcao de banheiros, atendimento medico, distribuicao de roupas, sapatos, fornecimento de aquecimento nas casas, atendimento medico, seguranca.

    Existem voluntarios que ajudam, principalmente organizacoes locais, em todas as 5 ilhas onde existem os acampamentos, e tambem nas dezenas de campos, onde no total estao cerca de 50.000 pessoas. Nao se falam muito disso, mas e impressionate o que o povo grego tem feito . Ano passado , estava em uma das 5 ilhas onde eu construia banheiros e presenciei um naufragio. Veja o link anexo ( http://veja.abril.com.br/mundo/naufragios-na-grecia-deixam-mais-de-40-imigrantes-mortos-incluindo-17-criancas/ ) . E acabara de reformar essa sala, que foi util no recebimento dos sobreviventes. Mas os voluntarios locais forneceram alimento, tratamento de saude e aconselhamento as vitimas, inclusive dois jovens que perderam os pais e irmaos foram adotados por uma familia crista local. A Juvep e Igreja Batista do Povo apoiaram o fornecimento de aquecedores para os quartos e para agua, e foi uma bencao que ate hoje perfura ali, onde ainda chegam pessoas toda semana.

    Muitos profissionais voluntarios tem nos contactado, porem temos visto a dificuldade de atuacao, apesar das necessidades. Por exemplo , existe tremenda necessidade de dentistas, pois essas pessoas ja vem com problemas dentarios, e a Grecia , que passa por uma tremenda crise economica, nao pode fornecer essa ajuda. Existem poucas organizacoes que promovem assistencia psico-social, pois muitos vem de perseguicoes, e sofreram muitas perdas de familiares e de bens. E necessario tradutores, pois sem falar o ingles fluente ou Arabico ou Urdu, pouco se pode fazer aqui. Existem obreiros preparados teologicamente no Brasil , de origem arabe que poderiam apoiar aqui minsitrar , e precisam de apoio para viajem e estadia aqui na Grecia.
    Oremos pelas vidas, e que Deus possa abrir portas para o anuncio do Evangelho entre eles.
    Trabalhemos para envio de obreiros treinados e capacitados para atender as necessidades e aproveitar as oportunidades de anuncio da mensagem da Cruz entre esses povos. Nos colocamos a disposicao para contatos.
    Atualmente estao em contrucao mais 5 acampamentos, conforme decisao da UE.

    porem sua contribuicao e muito limitada, por nao terem recursos e tambem por nao estarem enquadrados nas operacoes. Interessante

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