O renascer das ditaduras

O renascer das ditaduras
18 de fevereiro de 2008 Braulia Ribeiro

Fui com meu marido a um show de Mercedes Sosa e Maria Rita. A velha índia entrou encurvada e com dificuldades se sentou numa cadeira no meio do palco pra soltar seu vozeirão. Chorei ao ouvi-la cantar. Por décadas e décadas sua voz andina  foi a voz de todo um continente gemendo debaixo das botas dos caudilhos. “La muerte no va encontrale sin tener hecho lo suficiente… “ [1]

Mercedes ao contrário do continente que representa, se atualizou. Se associa à nova geração, e canta: “Todo Cambia”, não como um prognóstico mas como um canto de vitória. Supostamente se cambiaran las mazas em consumidores, se cambiaram dictaduras em democracias, se cambió el sufrimento silencioso dos campesinos em movimentos políticos de força.

Mas infelizmente a América Latina ainda se encontra mergulhada anacronicamente no maniqueísmo político da “direita” e “esquerda” e irremediavelmente enamorada das ditaduras, e das ideologias que a geraram. Nossa alma é a mesma. Quando o presidente do Brasil discursa depois do martírio do menino João Hélio no Rio, ele o faz como a mesma alma do campesino andino que nunca reagiu em 500 anos de domínio. “Não pensem que quem matou João Hélio foram os bandidos. Foram os governos passados que não geraram uma economia que permitisse o enriquecimento dos pobres.”[2]

Como representante das mazas Lula é vítima, tudo o que dá errado em seu governo é culpa de outros. Assim compreende o mundo, vitimizadores e vitimados. Em seu marxismo de botequim o “pobre” está acima do bem e do mal. Pode invadir e depredar o congresso, pode arrastar corpos de crianças pelas ruas, ressuscitando torturas usadas na idade média, pode colocar cidades inteiras em clima de terror. E os políticos dos “pobres” também podem usar de qualquer meio escuso para alcançar seus fins. A ideologia justifica tudo. A maza é uma ameba moral [3] a esperar de boca aberta que seus heróis guevarianos lhe alimente.

Ao justificar os bandidos do Rio, Lula torna idiotas todos os homens honestos do país. Não vale a pena o trabalho honesto. Que todos se tornem bandidos então, em troca dos bens de consumo. Não do pão, porque os criminosos do Rio que ele defendeu não passam fome. Sua necessidade é dinheiro para consumir drogas, jeans de marca, namoradas caras. Me lembram as meninas da classe média japonesa que se prostituem para comprar bolsas Louis Vuitton. Essas sim, amebas morais.

Lula conta com o apoio cego dos intelectuais do país e com a maioria do povo evangélico. O discurso evangélico “cult” é o mesmo discurso opressos-opressores, anti-Bush, anti-economia de mercado. Como evangélicos não temos nada a acrescentar, tocamos junto com todos o samba de uma nota só da aquiescência.

Esquecemos que a essência do evangelho é responsabilidade. Responsabilização individual e coletiva diante de Deus. Como indivíduos e como nação somos donos de nosso destino, agentes de nossa história. Não há pobre que seja apenas vítima assim como não há nação que não possa se erguer se quiser. É mais difícil enxergarmos nossos pecados sociais e e nos arrependermos deles. Mas nossos pecados coletivos tanto quanto os  individuais têm de passar também pela redenção na cruz. Com a repetição dos mesmos pecados sociais de sempre produzimos o ambiente certo para a instalação de uma nova ditadura. Nosso conceito de autoridade bíblica continua sendo o conceito católico do líder-pai-herói, do clérigo dono de nossa espiritualidade a quem devemos tudo. Negamos a reforma e não democratizamos nosso conceito de liderança. Temos nossa versão de papas, bispos, e santos.

O crescimento evangélico em nosso continente, assim como a versão latino-americana do catolicismo, reforçou a dependência da tirania, semeou um conceito manco e não-bíblico de justiça social preparando a cama da cultura para que as ditaduras da nova-esquerda deitem, e rolem… Amém dizem os santos Chavez, Morales, Luís-sabe-de-nada-Lula da Silva…

[1] Trecho de “Sólo le pido a Dios” de Leon Gieco
[2] Discurso de Lula televisionado pelo Jornal Nacional no dia XX
[3] Palavras de Marcola, chefe da máfia criminosa de SP

Publicado originalmente em www.ultimato.com.br

Pioneira no Norte do Brasil trabalhando entres tribos indígenas, é Mestre em Etno-linguística em Linguística Antropológica pela Universidade Federal de Rondônia. Missionária de Jovens Com Uma Missão desde 1980.

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